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E é isto

por MC, em 27.11.15

"Quando o ayatollah Khomeini ordenou que Salman Rushdie fosse assassinado por ter escrito um livro, a ordem foi recebida com alguma compreensão. O escritor John Le Carré disse: "Não creio que possamos ser impertinentes em relação às grandes religiões impunemente." O arcebispo da Cantuária acrescentou: "Compreendo bem a reacção dos devotos muçulmanos, feridos naquilo que consideram mais sagrado, e pelo qual estariam dispostos a morrer." Quando Theo van Gogh foi assassinado por ter realizado um filme, aconteceu mais ou menos o mesmo. Um jornalista inglês, por exemplo, escreveu que o realizador tinha "abusado do seu direito à liberdade de expressão". Quando a violência deflagrou em vários sítios do mundo e cerca de 200 pessoas perderam a vida porque um jornal dinamarquês publicou uns desenhos, houve mais reacções parecidas. O Vaticano emitiu um comunicado que dizia: "O direito à liberdade de expressão (...) não pode implicar o direito a ofender o sentimento religioso dos crentes." O governo inglês considerou que a publicação dos desenhos foi "desnecessária", "insensível", "desrespeitadora" e "errada". O ministro português Freitas do Amaral afirmou que os desenhos ofendiam "as crenças ou sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos" e acrescentou que a liberdade de expressão devia respeitar a liberdade de religião, concluindo: "liberdade sem limites não é liberdade, é licenciosidade". Quando vários cartunistas do Charlie Hebdo foram abatidos a tiro por terem desenhado uns bonecos, a culpa das vítimas voltou a ser referida. O Papa Francisco disse: "Não se pode provocar. Não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode fazer troça da fé dos outros." Tony Barber, do Financial Times, escreveu: "seria útil que houvesse algum bom senso em publicações como o Charlie Hebdo (...) que reclamam estar a infligir um golpe pela liberdade quando provocam muçulmanos, mas estão apenas a ser estúpidos."

Esta semana, depois de mais de uma centena de pessoas ter sido assassinada por estar a ouvir música, a jantar num restaurante ou a ver um jogo de futebol, ainda ninguém veio chamar a atenção para o modo como o comportamento das vítimas ofendeu os fundamentalistas islâmicos. Permitam-me que seja o primeiro. A mesma sensibilidade com que algumas pessoas foram, ao longo do tempo, condenando certas provocações inaceitáveis aos assassinos, sempre tão susceptíveis, devia agora servir-lhes para detectar e repreender mais esta ofensa. Aquilo que as vítimas da passada sexta-feira estavam a fazer era tão afrontoso para os assassinos como escrever um livro, realizar um filme ou fazer um desenho: estavam a viver em liberdade. O comunicado no qual o estado islâmico reivindicou o atentado dizia que Paris tinha sido escolhida por ser "a capital do vício", que o Bataclan era um alvo por ser o sítio onde estavam reunidos "centenas de pagãos", que os terroristas tinham aberto fogo sobre "um ajuntamento de incréus" e que os ataques continuarão "enquanto continuarem a ofender o nosso profeta".

Felizmente, eu vivo num mundo em que temos a liberdade de nos ofendermos uns aos outros. Essa liberdade é fundamental, uma vez que as pessoas se ofendem com muitas coisas diferentes. Os bárbaros, por exemplo, ofendem-se primeiro com um livro, depois com um filme, depois com um desenho. E depois acabam por ofender-se com o facto de respirarmos. Talvez John Le Carré, Freitas do Amaral e o Papa considerem que devemos passar a respirar com mais respeito. Eu acho que isso é tão absurdo como escrever, filmar ou desenhar com o cuidado de não ferir a sensibilidade de assassinos".

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publicado às 21:25

Pobreza(s)

por MC, em 26.11.15

Só agora, com o bater da hora de almoço, o sol consegue atenuar a brisa fria na rua. As pessoas caminham apressadas, a cabeça anichada nos ombros levantados. Do snack-bar espraia-se um delicioso cheiro, mesclado de limão e canela, que os transeuntes habituais reconhecem de imediato: é quarta-feira, dia do impreterível e celestial arroz-doce da D. Filomena. O aroma, enleado nas notas fortes do café acabado de moer, aquece o ar das redondezas e as entranhas de quem passa.

A D. Filomena, no seu papel de empedernida instigadora do pecado da gula, dispunha, em lugar estratégico no topo do balcão, o tabuleiro com as tacinhas ainda fumegantes, quando vozes alvoroçadas no exterior cativaram a sua atenção. “Ai coitadinha! Então, menina? É melhor chamar a ambulância!”, ouviu quando se abeirou da porta. Mesmo em frente, no passeio junto à paragem do autocarro, as pessoas amontoavam-se numa roda imperfeita mas compacta, as cabeças inclinadas num esforço de observação. Algures dentro do círculo, uma voz fraquinha miava: “não é preciso, já estou melhor, já passou…”

Quando o ajuntamento afrouxou, a D. Filomena viu, encostada ao vidro da paragem, uma miúda magricela e pálida, de lábios roxos. Não lhe era estranha aquela cara, já a tinha visto mais vezes: era uma rapariga lá de cima, do “bairro” - singela referência vulgarmente utilizada pela vizinhança para designar o amontoado sombrio e deslavado de prédios de habitação social construído nos fundilhos da freguesia há mais de duas dezenas de anos. Via-a amiúde por ali, deambulando com os seus: vieram-lhe à memória os modos desordeiros, o palavreado obsceno, o destempero dos gestos, as provocações à vizinhança, as recorrentes arruaças sem causa.

“Então o que se passa com a rapariga?”. Inquiriu. “Desfaleceu, coitadinha”, explicou uma das espectadoras; “estava aqui tão bem e tombou que nem um pardal”, ajudou o Sr. Zé do quiosque. “Pronto, pronto”, sossegou-a a D. Filomena, enquanto a amparava com os braços generosos de avó. E agarrou-lhe nas mãos geladas, depositando nelas pequenas palmadinhas terapêuticas, ao mesmo tempo que lhe espevitava o ânimo com palavras de encorajamento: “anda lá, rapariga, vá, anda comigo, entra aqui, ora senta-te lá um bocadinho, a ver se isso passa.”

“Já estou melhor”, declarou a rapariga e sorriu combalida, bebericando pequenos golinhos de água. “Então que se passa contigo? Estás doente?”, indagou a D. Filomena. A moça abanou a cabeça negativamente, os olhos baixos. “Não estás, mas vais estar não tarda! Onde já se viu, andar assim vestida com este frio? Não tens juízo, rapariga?”, ralhou, apontando para a fina camisola de malha que deixava a descoberto a pele arrepiada da barriga, até ao início da exígua mini-saia xadrez. “Isso é roupa que se vista com este tempo, andas aí com a posta do meio toda à mostra?”

“Olha lá, isso não será fraqueza? Já tomaste o pequeno-almoço?”, questionou a D. Filomena. A rapariga corou, fez que não, os olhos sempre baixos. “Ai não? Então também tens a mania das dietas?”, rosnou-lhe. “Não… é que a minha mãe está outra vez de baixa… e o meu padrasto ainda não arranjou nada… o subsídio só deve chegar hoje… e então…”, sussurrou, como quem empurra as informações aos solavancos.

A D. Filomena respirou fundo, num esforço inglório de fingir leveza, e aligeirou o tom: “pronto, deixa lá, é só um mau momento, não é? Vais ver que não tarda as coisas melhoram! Vou trazer-te um copinho de leite e uma sandes, está bem?” E ali ficou a vê-la comer o pão em pequenas dentadinhas graciosas, com o decoro e a dignidade de uma pequena aristocrata na penúria.

Um sonzinho amaricado rasgou o silêncio de ambas. A garota levou rapidamente a mão ao bolso traseiro da saia e de lá retirou, como num passe de mágica, um rectângulo rosa cheio de brilhos. Os seus lábios abriram-se num sorriso ainda mais luminoso e exclamou: “já está! Já está! A minha mãe já me carregou o telemóvel!”, a alegria em estado puro a bailar-lhe nos olhos.

O espanto gorgolejou na garganta da D. Filomena. A vontade de esbracejar e barafustar embuchava-lhe o estômago, incómoda como água suja num cano entupido. Cerrou os dentes para não ralhar, observando, num silêncio forçado, os dedos finos e céleres da garota a dedilhar no écran, as agruras da míngua já esquecidas. Um suspiro fundo e sentido escapou-se-lhe do peito. Lançou um último olhar desalentado, antes de se levantar para ir compor as mesas para o almoço e questionou-se se não seria esta uma das mais terríveis formas de pobreza.

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publicado às 21:16

Excelência

por MC, em 26.11.15

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publicado às 00:01

Questions?

por MC, em 23.11.15

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publicado às 21:40

Bandeiras

por MC, em 19.11.15

O autocarro enche-se logo na primeira paragem. Os risos altos e as vozes destemperadas ocupam todo o espaço e propagam-se no ar artificialmente quente do interior. Os poucos viajantes adultos preferem não aventurar-se no espaço posterior do veículo e optam por permanecer de pé, junto à saída. Os miúdos acomodam-se e espraiam-se com o descuido da juventude. Cruzam-se risos e conversas tontas, amanham-se trios em lugares de dois, celebra-se a liberdade efémera do fim do dia.

O autocarro arrasta-se no vagar forçado do trânsito. Passados largos minutos ainda lá está, poucos centímetros conquistados aos soluços, no topo da avenida. Na frente do imponente edifício envidraçado, os postes enfileirados abanam vigorosamente com a ventania e as bandeiras esvoaçam furiosas. As rajadas caprichosas enredam os tecidos num despropósito cómico, como roupas multicores num estendal vanguardista.

-Olha, olha, aquelas bandeiras enroladas parecem uma saia! – exclama um miúdo franzino, derreado pelo peso da mochila. E perante um coro desafinado de “ondes”, precisou – Ali! Ali! A portuguesa e a outra!

-Pois é! - clama uma rapariga coradinha do banco corrido de trás – parecem uma saia bué pirosa, com aquelas cores todas! É a bandeira de Paris!

-Ó burra – grita-lhe uma voz lá da frente – Paris não é um país, é uma cidade! É a bandeira da França!

-Não é nada - opina outra voz – as cores são iguais, mas não é a da França!

Desprega-se dentro do autocarro uma saraivada de sins e nãos, zombarias e insultos às capacidades académicas de uns e outros.

-Não é a da França, não senhor – destaca-se uma voz esganiçada de adolescente – que eu até a tenho no perfil do facebook, por causa daquilo dos mortos e as cores são ao alto!

Que sim senhor, é verdade, anuem quase todos, que também eles a têm no perfil do facebook, por causa ‘daquilo’.

-Eu não – fala pela primeira vez um pequeno de rosto branquinho e cabelo avermelhado que escutava em silêncio sentado à janela.

-Não tens?! – pergunta a miúda sardenta sentada à sua frente. – Todos devem pôr a bandeira no perfil para mostrar que têm pena dos mortos. Tu não tens pena dos mortos?

-Eu não – repete o miúdo exasperante.

Um impaciente coro de ‘nãos?!’ reverbera dentro do autocarro.

-Não – teima o garoto, esclarecendo – eu não conheço nenhum morto, nunca vi nenhum.

-Ó pá, és muito otário – torna a miúda das sardas – a gente também não os conhecia, mas temos pena porque foram mortos por terroristas, percebes? E agora todas as pessoas que são amigas dos franceses põem a bandeira no perfil para eles verem que têm muitos amigos, tás a ver?

-Eu não quero pôr – reitera o teimoso. Perante os olhares impacientes dos restantes, continua: - os franceses vêem que nós somos amigos deles, mas também os terroristas vão à internet e agora ficaram a saber que nós não gostamos deles e depois vêm para cá todos rotos, sem sapatos a fingir que são pobrezinhos e matam-nos a nós também, não é?!

A lógica inatacável do argumento impôs um silêncio amedrontado e encorajou o orador a continuar:

-E também o meu pai diz que não põe a bandeira da França, nem partilha os vídeos com as pessoas a cantar a ‘maionaise’, ou lá como se chama o hino deles, por causa disso.

-O meu avô também não quis pôr a bandeira – avança a medo o miúdo da mochila – diz que os terroristas matam todos os dias montes de pessoas noutros sítios e ninguém liga nenhuma a esses mortos, só ligam aos mortos franceses…

-Ah, mas esses mortos são diferentes – contesta a miúda das sardas – são pessoas diferentes, que vestem aquelas roupas esquisitas iguais aos terroristas e vivem lá muito longe, nuns países estranhos, onde há muita abundância de necessidades e por isso andam sempre todos em guerra e lá nas ruas não se percebe bem quem são os terroristas e quem são os bons e eles já estão habituados às guerras e morrem constantemente.

-Pois é – corrobora a miúda coradinha do banco de trás – o meu pai diz que essas pessoas já estão habituadas a viver em casas todas destruídas e a ter os prédios e os hospitais e as escolas todas bombardeadas quase todas as semanas, porque é lá um costume deles e nem se importam de morrer porque depois ressuscitam ‘por causa que’ são muçulmanos. E ficam furiosos quando as outras pessoas não querem ser muçulmanos também e matam-nos que é para aprenderem.

Um silêncio meditativo imperou perante a crueza dos argumentos. Depois de alguns instantes de magoada reflexão, o menino pálido de cabelo avermelhado conclui em voz baixa:

-Eu não quero ser muçulmano. Acho que vou ser ateu, como o meu pai. Ninguém sabe quem é o deus dos ateus e ao menos assim não há razão para guerras.

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publicado às 18:34

Don't pray, think

por MC, em 16.11.15

mauricio-hellerdani-fenetre-sur-paris.jpg

(foto de Mauricio Hellerdani)

 

 

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publicado às 22:15

Higienes

por MC, em 12.11.15

O Sr. Joaquim mudou de posição e recostou-se melhor no assento macio. As nuvens carregadas apressavam o escurecer e a chuva miudinha escorria mansa pelo pára-brisas. O barulho ritmado das escovas a percorrer o grande vidro do autocarro misturava-se com a canção melosa que volitava do radio em surdina. 

Sacudiu a cabeça para afastar o sono e o cansaço. Na sua mente troavam ainda, em alegre balbúrdia, as vozes que lhe foram enchendo o autocarro ao longo do dia. Dentro de poucos instantes chegaria ao fim mais um dia de trabalho. Pelo espelho, lançou um olhar distraído ao veículo quase deserto. Sentada no segundo lugar, junto à porta, dormitava a D. Felismina, sua única companhia até à paragem no terminal.

Firmou o olhar na estrada já completamente escura à sua frente, no bulir endoidecido dos abetos que a ladeavam, na chuva a bater cada vez mais grossa. Pareceu-lhe ver, através do filtro distorcido das carreiras de água no vidro, uma massa colorida a adejar na berma escura da estrada. A proximidade confirmou-lhe e clarificou-lhe a visão: uma pessoinha caminhava apressada, os ombros curvados a contrariar o vento, o fato de treino cor-de-rosa encharcado, o pequeno capuz acachapado à cabeça.

Imobilizou o veículo suavemente e abriu a porta. Um sorriso envergonhado substituiu o temor nos olhos da menina quando reconheceu o Sr. Joaquim. “Que andas tu aqui a fazer a esta hora, menina?”, questionou, e antes mesmo da resposta, continuou: “Então não vês que é muito perigoso andar de noite sozinha, pequena? Anda lá, sobe, sai dessa chuva!”

Após um curto instante de hesitação, a menina subiu e, ao passar por ele, sussurrou embaraçada “não tenho passe, nem dinheiro para o bilhete”. A expressão bondosa do motorista e o olhar curioso da D. Felismina soltaram-lhe a desenvoltura do discurso e logo desenrolou o seu novelo de contrariedades: a bolsa perdida, algures na escola; a aflição da procura; o descuido do tempo; o tardio das horas; a caminhada solitária; a noite que a pilhou a meio do caminho; o terror maligno do escuro.

“Devias ter pedido na escola para telefonarem para tua casa, pequena. A tua família deve estar aflita”, lembrou a D. Felismina. Que não, retorquiu. Que ninguém lá estaria para atender o telefone, nem para a ir buscar. “Então os teus pais?”, questionou o Sr. Joaquim. Do pai não sabia, não senhor. Lá em casa viviam a mãe, a avó, ela e uma irmã, mas agora não estariam lá. “Então e sabes explicar-me onde é a tua casa, para te lá levar?”, investigou. “Sim”, declarou a menina com brioso desembaraço, “moro ao pé do cruzamento para o bairro”. O Sr. Joaquim arregalou os olhos de espanto perante a lonjura calculada: “mas então é muito distante! E ias a pé? E ninguém cuidava de te procurar?”, insistiu, o descrédito a crescer-lhe na voz.

“A mamã foi trabalhar, a avó foi com ela. Só voltam amanhã”.

“Foi então trabalhar para longe?”, perguntou o Sr. Joaquim. “E em que trabalha ela?”, aprofundou, expedita, a D. Felismina.

“A mamã faz limpezas. Foi trabalhar a Coimbra.”

“Limpezas? Em Coimbra?”, emparelharam eles as duas vozes, a curiosidade a transbordar-lhes dos poros.

“Sim”, repetiu a menina com convicção: “a mamã faz limpezas, vai limpar as casas das pessoas a muitos sítios, vai onde as pessoas moram, desta vez foi a Coimbra. Às vezes vai ao Porto, ou mesmo a Espanha e tem de lá ficar de noite”, concluiu assertiva. Um silêncio cauteloso instalou-se no autocarro por curtos instantes e só foi interrompido pela voz alegre da menina: “é ali, é ali que eu moro! Aquela é a minha casa! Ali! Ali!”

Apontou na direcção de uma casa bonita e bem cuidada, pintada de um amarelo vivo que havia de combinar, em dia de sol, com o alpendre de madeira e o pátio empedrado, rodeado de gordos arbustos floridos. Ao fundo, no relvado, as gotas de chuva agitavam mansamente as águas verdes da piscina, que brilhava feérica sob as tiras rasgadas de luz dos faróis do autocarro. 

Sem conseguir ler os intrigados e ambíguos olhares adultos, a menina desceu do autocarro, feliz, e correu para a porta de casa, toda ela envolta em escuridão e silêncio. Apreensivo, o Sr. Joaquim atrasou a partida. Ao fim de largos instantes, uma rapariga abriu a porta e logo soltou um gritinho de reconhecimento e zanga. A menina desatou rapidamente o embrulho dos acontecimentos, a vozita alvoraçada aos tropeções da pressa. A rapariga olhou para o autocarro, acenou para o Sr. Joaquim e de lá atirou um breve “obrigada”, enquanto encaminhava a pequenita para dentro e fechava rapidamente a porta.

À luz do alpendre, agora iluminado, balançava um letreiro com rotundos dizeres:

 

     FAZEM-SE LIMPEZAS ESPIRITUAIS

           BENZEDURAS DE CASAS

           DESATAM-SE ESPIRITOS

     DESAMARRAÇÕES DE TRABALHOS

 

 

 

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publicado às 18:40

Boas contas

por MC, em 10.11.15

Entrei com facilidade no fecundo universo das letras, de tal modo que nem consigo precisar em que momento exacto cruzei formalmente o tão ansiado umbral da leitura. Lembro-me dos primeiros dias de escola, das minhas tentativas trapalhonas e preguiçosas de desenhar letras dentro das linhas paralelas do caderno, do prazer inebriante de rabiscar no quadro negro. Vejo-me logo de seguida, em instantes de crueza fotográfica, sentada junto à imensa janela por onde o sol meigo de Outono alaga a sala, o dedo a deslizar pelos carreiros de letras no livro da primeira classe, o olhar azul da professora Lídia a amparar a leitura, o calor maternal do seu braço sobre os meus ombros a segurar os resvalos.

O mundo das letras sempre (me) foi intuitivo, acolhedor e absolutamente pleno de sentido(s), um amplo e infinito salão de baile aos Domingos à tarde, um parque de diversões numa noite de Junho, um universo mágico inesgotável, tantas vezes vivido debaixo da tenda improvisada dos lençóis, à luz da lanterna verde que o pai se arrependia de ter comprado, tão cara que tinha sido e mesmo assim descarregava as pilhas tão depressa, vá-se lá saber porquê.

Nunca consegui tirar dos números a mesma intimidade prazerosa, apesar da admiração que lhes tenho. Os números são laboriosos e organizados, multiplicam-se e reflectem-se no mundo, nas formas mais maravilhosamente coordenadas, demandam precisão na tecedura, rigor nos preceitos. Nem mesmo nas brincadeiras os números abandonam a sua condição sistémica, desmanchando a reinação ao menor sinal de batotice desregrada.  

Os professores de matemática que fui tendo, na sua infinita bondade, fizeram o favor de compensar o meu esforço muitas vezes atabalhoado mas honesto com uma positiva modesta no final dos períodos. Ao contrário das letras, que me fazem sentir aconchegada, coisas com números deixam-me sempre insegura. Dificilmente memorizo sequências numéricas por mais básicas que sejam, como números de telefone, pins de cartões ou matrículas.

Tenho pena, a sério. E agora, perante tantas reiteradas, infrutíferas e profundamente decepcionantes tentativas, experimento um razoável receio que as forças cósmicas me castiguem por esta minha falha e nunca me deixem ganhar o euromilhões. 

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publicado às 21:12

Estendais antigos

por MC, em 03.11.15

 

A casa quinentisasta da Rua dos Cegos, 20-22.jpg

 

 Casa quinhentista na Rua dos Cegos (junto ao castelo de São Jorge) 

(daqui)

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publicado às 22:36


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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